Terça-feira, 22 de Setembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

onde a mãe entra num documentário,  recupera a liberdade, lavar escadas é trabalho de soldado, a esgrima verbal é uma opção

 

Não sendo certo, os dois fizeram um caminho e Laura foi-se desligando deles, não por opção, mas por causa do “tipo”, o terceiro marido que a impedia de telefonar, que lhe controlava a conta bancária, todos os seus movimentos. Os filhos não entendiam como é que alguém tão livre quanto Laura podia viver assim, não entendiam que não morresse como certos animais. Jaime viu um documentário sobre baleias suicidas na televisão do café perto da universidade. Nessa noite, sonhou que a mãe podia ter o mesmo destino, matar-se na praia por falta de liberdade.

 

Laura não teve esse sobressalto, mesmo que vestida de tristeza, deixou-se estar por muito tempo. No ano em que Jaime começou o estágio e regressaram a Lisboa, Laura quis recebê-los, dar-lhes uma morada.

Os meus filhos.

O “tipo” não discutiu a possibilidade de fingirem ser uma família, de brincarem com essa ideia. Houve gritos e gestos violentos. Laura saiu nessa noite de casa e ficaram os três na rua a ver o sol a pôr-se. Paulo tinha alugado um quarto.

Onde dormiam dois, dormem três.

Foi o que ele disse.

 

Como é que um miúdo tem mais dinheiro do que a mãe? Podia ser essa a questão, tantas vezes repetida por quem os conhecia, quem os observava e fazia comparações. Uma comparação é já uma crítica, pensava Jaime. Escolhia ficar calado, deixar o irmão decidir. A mãe vogava. Como um barco de papel. Começou a trabalhar a dias. Pendurava o cabelo no rabo de cavalo e dizia

Sou um bom soldado. É preciso lavar escadas, lava-se escadas.

 

 O destino não era tão miserável, não podia ser. Paulo começou o estágio e teve sorte. Gostavam dele. Jaime estava no liceu. Laura tinha duas casas fixas onde limpava, passava a ferro, cozinhava. Os filhos sabiam, intuíam o disparate imenso que se adivinhava. Laura não era feita para tantas amarras, ou seria o tempo e o terceiro marido? O tal que a tinha colocado debaixo de água, sem respirar e ela, tanto tempo, demasiado tempo, aguentara sem dizer nada? Eles não sabiam. Laura estava contente. Tudo era um jogo.

 

Um dia, domingo de manhã, depois de um pequeno-almoço sem novidade ou sabor especial, Paulo decidiu fazer contas. Estava na altura de mudarem de sítio. Outra vez. Jaime quis dizer que gostava de estar por ali, perto do liceu, mas reteve as palavras na cabeça. Não queria fazer barulho, já era suficientemente mau ter de ver o bailado de esgrima verbal entre a mãe e o irmão.

 

publicado por Patrícia Reis às 19:19
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