Terça-feira, 29 de Setembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

Onde Paulo é salvador, a perdição é pensamento, a amizade se estilhaça, não existem pensamentos felizes, a festa podia ser outra

 

Jaime tinha garantido a Carmen que devia tudo a Paulo.

O meu irmão salvou-me. Não preciso dizer mais do que isto. Se não fosse o Paulo nunca teria feito nada da vida.

E depois contou, em resumo, por lhe ser tão difícil falar da mãe, da infância, da adolescência, que acabaram por ficar sozinhos de novo. Laura encontrou uns amigos de juventude. Iam a França, visitar uns familiares, ela podia ir, porque é que não ia? E ela, contente com o verão, feliz sem esfregona e outros utensílios, garantiu que eram duas semanas e foi.

Voltou três anos e meio depois com o François, com quem se manteve durante algum tempo. Paulo e Jaime tinham andado para a frente.

 

A nossa vida é sempre distinta do que pretendemos que seja, fica aquém dos sonhos e ilusões possíveis. Sobre isto não havia a menor dúvida, assim o pensava Carlota, ela que não sabia se deveria dizer a Carmen que estivera com Jaime, ela que não sabia como seria a tal festa onde conheceria Paulo, o salvador. Sentia-se perdida. Uma bola fora do sítio.

 

Não era nada, era apenas o mundo que a atingia em todo o seu esplendor. Carmen ouvira uma Carlota titubeante do outro lado do telemóvel. Não podia dizer do outro lado da linha, pois não? Os pensamentos atropelavam-se em disparates. Conseguia ver Carlota a sucumbir nos braços de Jaime. Conseguia ver a boca de Jaime na dela. Pensou:

Não. Calma. Não é nada disso. É tua amiga. Foi só um almoço.

Um almoço. Uma refeição como aquela que partilhavam todos os meses? Não, Carlota não tinha nenhuma ligação a Jaime, ir almoçar com ele era uma agressão. Uma agressão como um tabefe bem dado. Ou pior.

 

Carlota dividiu-se. Havia uma dentro dela que ansiava pela aventura do proibido, do moralmente discutível; era aquela que sempre pensara em Jaime como sendo seu, fantasiando com o namorado da amiga, sem o dizer, lamentando que fosse fiel a um ser tão “certinho”. A outra nela, dentro dela, mais ou menos poderosa consoante o minuto de determinada hora, insultava-se com o absurdo de considerar Jaime um potencial candidato amoroso quando ela, Carlota, tinha algumas amizades coloridas que cumpriam os desejos curtos que a assaltavam.

Sou uma contradição. Penso mal da minha amiga, gosto dela e penso mal dela.

Carmen não suspeitava. Que a sua amiga partilhasse uma refeição com o seu ex, não era natural? Não, não era.

 

Dificilmente, Carmen podia compreender. Carlota não tinha como explicar e Jaime estava fechado no seu mundo impossível de interpretar pelas redes sociais. Paulo estaria na festa naquela noite. A existência da festa, uma festa à qual Jaime queria ir, levando a sua melhor amiga, era algo que Carmen tomava como uma ofensa. Fez alguns telefonemas, espreitou o facebook e percebeu. Percebeu o onde e o porquê da festa.

publicado por Patrícia Reis às 19:20
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