Terça-feira, 10 de Novembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

 

Onde, de repente, Carlota se vê a receber um Oscar; o filme continua; a festa também se faz com silêncios;  o ódio é garantido; há impossíveis

 

Carlota cumprimentou Paulo com pouco à-vontade. Gostaria que desaparecessem, ele e a Carlota, tão idiotamente serena. Preferia não ver o Jaime, ficar ali com o Martim e perceber que a vida podia ser mais parecida com um automóvel de corrida. A metáfora era apropriada. Martim tinha esse jeito de carro desportivo. Rápido, dinâmico, bom design, solidez e modernidade. Uma cambada de clichés, é certo, porém Carlota estava como que presa a tudo aquilo e, se de repente, ele tivesse uma arma e começasse aos tiros para a salvar, seria apenas mais uma banalidade.

 

Martim, por seu turno, ciente de ter um palco só para si, um palco limpo de histórias para trás -  Carlota nem fazia ideia que era irmão de Carmen -, sentia-se a tecer as malhas da sedução com eficácia. Era o tipo de homem que conseguia perceber o efeito que tinha nas pessoas. Algumas mulheres eram imunes ao seu charme, em especial as mais pragmáticas. Carlota queria viver uma aventura com uma dose de perigo e, talvez por isso, ignorou a irmã e o cavalheiro ao seu lado, pegou na mão da sua donzela resgatada e encaminhou-se para as casas de banho. Carlota deixou-se levar e Carmen ficou a ver.

 

O silêncio entre eles tinha mais impacto do que o som alto do hip-hop. Como se Carmen e Paulo estivessem num casulo. Jaime não iria aparecer, disso tinha ela a certeza. Vira-o, encara-o com a calma de desafio ganho e ele esfumara-se entre os que dançavam e os outros que tentavam falar e, por isso, eram obrigados a gritar. Olhou para Paulo na certeza de compreender na totalidade o seu desconforto.

 

Carmen disse:

 

E se fossemos beber um copo a outro sítio?

Nós?

Sim. O teu irmão não vai aparecer.

E tu queres ir beber um copo comigo?

Sim. Não gostas de mim. Eu não gosto de ti. Não há perigo.

 

Paulo riu. Não conseguiu evitar. Carmen estava já de pé e mostrava as chaves do carro.  

 

Jaime saíra da festa há algum tempo. Tinha ficado sentado dentro do carro a ver as pessoas a circular. Gostaria de ter festejado mais o facto espantoso de ter sido promovido. Sentia-se menos mal por ter falado com os seus colegas e patrões, logo no início. Mostrara a cara, era a conclusão. O divertimento que se prometera falhara ao ver Carmen com o irmão. A vida não seria nunca uma dedução óbvia. Devia ter estado mais atento às aulas de lógica? Pensava nisto, sem grande ordem, quando viu o corpo do irmão entrar dentro de um carro que conhecia de sobremaneira. Não havia impossíveis e Jaime acabara de testemunhar um impossível. Estava escrito.

 

 

publicado por Patrícia Reis às 21:11
link do post | comentar

por este mundo acima_

Por este mundo acima

pesquisar neste blog_

 

arquivos_

Os Livros_

Clique na imagem

para comprar o livro.




















subscrever feeds