Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

Onde a ambição é a hipótese real; vencer a família é o ponto de ordem; Paulo faz as perguntas; Carmen se esconde num casulo de fruta; Jaime se perde na desistência; o dia seguinte é o cliché do costume até...; há um amanhã

 

Carlota pensava o mesmo. Estavam de acordo sem o saberem. Apesar daquela coisa entalada entre os dentes – seria alface? Um pedaço de um charuto? -, Martim tinha algo que lhe agradava sobremaneira. Talvez fosse a ambição assumida. Lembrou-se de algumas histórias que Carmen tinha contado. Talvez fossem exagero. Ou ciúme. Carmen não podia conviver com um irmão com sucesso, teria de o superar e ela, como se sabe, não tem ambição para tanto.

Paulo teria de discordar. A ambição de Carmen – na perspectiva de profissional de saúde mental – estava focada apenas numa perspectiva da vida: emocional. Carmen queria superar todos os fantasmas, esquecer o impacto do irmão, a sua figura sempre vencedora, e provar-se que, como tantas outras mulheres, o amor da mãe e do pai era dispensável. Carmen queria vencer e sobre isso foi discorrendo enquanto bebiam bellinis de pêssego, escolha sui generis, que Paulo não entendeu ter sido possível. Ela falava calmamente.

 

Desculpa, Carmen, mas a família é assim tão importante? Não és uma adolescente.

 

Sou. É estúpido dizer que sim, mas sou. Depois da minha avó ter morrido, a porta ficou semi-aberta. Só me restam os meus pais e o meu irmão, só eles é que podem testemunhar que venci.

 

É uma forma derrotista de colocar as coisas? És tu a fazeres um papel trágico? Ou de diva?

 

Partimos para as ofensas?

 

São perguntas.

 

As perguntas ofendem, Paulo.

 

A cabeça estava entornada com álcool. Queria fumar cigarros, ela que não fumava, queria falar mais sobre as maldades da mãe, a sua coleção de anéis comprados a prestações, sobre as piroseiras do irmão que continuava a levar mulheres para dormir na casa de Coimbra como se a casa da avó, agora fechada, fosse uma pensão. Estava disposta a despir-se para aquele Paulo tão sério e engravatado, tão profissional, tão pouco bebido.

 

A noite podia seguir longa, desmultiplicada, espelho das realidades de todos eles. Ficava o silêncio de Jaime, um homem sem festa, companhia ou possibilidade de reconciliação com o irmão. O que os afastava não era uma mulher, Carmen ou Carlota. Não, era a mãe, era a estranheza da mãe que um aceitava e o outro repudiava, embora inconsciente. Seria uma falha? Talvez um cansaço, desistência.

 

Carlota acordou na cama de Martim e quase teve vontade de rir. Os lençóis eram de cetim, pirosos, cinzentos quase prata escuros. O corpo dele mantinha o ritmo da respiração profunda de quem bebeu de mais, ou seja, o corpo inteiro ressonava. Carlota voltou a conter o riso e saiu da cama sem se preocupar com potenciais ruídos. Pegou no telemóvel e tinha uma sms de Carmen

 

Espero que a tua noite tenha sido tão boa quanto a minha. Fica o aviso: não há pior do que o meu irmão.

 

Carlota tinha publicado no Instagram algumas fotografias, semi desfocadas, dos diferentes bellinis que tinha bebido. Guardara uma fotografia de Paulo, havia um certo sorriso no seu rosto, algo que lhe parecia familiar, aquela genética que a levava a recordar certos momentos com Jaime. Não tinham dormido juntos. Estavam demasiados bebidos, Paulo mandara vir um táxi e tinha-a deixado à porta de casa, dizendo

 

Ficas bem, Carmen?

 

Liga-me amanhã. Informo-te.

 

publicado por Patrícia Reis às 21:17
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