Terça-feira, 15 de Dezembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

Onde a ironia toma conta; Laura compensa o vazio; os recados estão pela casa; o silêncio é a solução

 

Paulo podia ligar a Carmen mas para isso seria preciso ter o número de telemóvel da ex namorada do irmão, a ex namorada de um período longo, mesmo muito longo. Mas ele preferira ignorá-la. Maldizê-la. Não quis ver nada de bom em Carmen e, de ressaca, incapaz de dormir, bebendo cafés duplos na pastelaria do costume, a tentar acertar quantas consultas podia desmarcar, sentiu-se infantil. Precisava de saber o número daquela mulher.

Jaime tinha dois dias de férias. Estavam marcados há muito tempo. Deitara-se tarde, andara por aí e, pelas duas da tarde, tomou duche e decidiu que precisava de ver a mãe. Não havia nenhuma razão. Geralmente, visitava-a ao sábado, uma vez por mês. Não era muito, não era pouco, era o possível. Paulo raramente ia. Falavam ao telemóvel, explicava-lhe o irmão como se fosse natural. Jaime sabia que Laura lhe tinha falhado há muito tempo – porventura falhara aos dois, mas Jaime preferia não o entender assim. Estacionou a dois quarteirões da casa da mãe.

Laura não estava preparada para nenhuma visita. Não era sábado. A casa estava a desfazer-se, os dois gatos miavam à volta da tijela de água. O cabelo estava por lavar. O odor que saía dela era algo incompatível com a ideia que se tem de uma mãe. Jaime olhou à volta e percebeu várias coisas. O terceiro marido não vivia ali. Por todo o lado, em vários móveis, estão fixos post it com frases como

 

Comer

 

Lavar os dentes

 

Dar de comer aos gatos

 

Sábado Jaime

 

Era o caos. Laura tentou não olhar o filho mais novo, apressou-se a retirar algo de cima do sofá, um monte de coisas que Jaime não entendeu o que eram. Entre eles o espaço para palavras tinha sido eliminado. Incapazes de dizer. Confuso, Jaime deu água aos gatos. Tirou o casaco e começou a arrumar. Não sabia o destino da maioria das coisas e esse desentendimento com o mundo da mãe, levou-o a um caos ainda maior: cada gaveta era uma surpresa, um susto. Um cheiro repugnante vinha de algures. Laura manteve-se no sofá e, por momentos, fez-se adormecer.

 

 

publicado por Patrícia Reis às 21:05
link do post | comentar

por este mundo acima_

Por este mundo acima

pesquisar neste blog_

 

arquivos_

Os Livros_

Clique na imagem

para comprar o livro.




















subscrever feeds