Terça-feira, 19 de Janeiro de 2016

Fictiongram, continuação da continuação

Quando há mais na equação; Laura expulsa os filhos; Jaime toma uma atitude; Carmen não sabe que pensam nela; a gentileza marca o momento

 

Carlota tentou apaziguar a versão de Carmen. Afinal, os irmãos estão sempre em lados opostos. É quase uma inevitabilidade. E o mesmo se pode dizer da competição. Carmen abanou a cabeça, fumava mais um cigarro e olhava para lá da amiga. Não queria explicar a maldade que sabia existir em Martim, queria apenas que Carlota não caísse na tentação de voltar a estar com aquele homem, um desconhecido.

Jaime e Paulo mantiveram-se na varanda a conversar durante algum tempo. Laura fingia dormir e atormentava-se com ideias esmagadoras, estranhas, cenários que era capaz de fazer desde miúda. Por momentos, a lucidez chegava-lhe como uma estalada e sabia que tinha culpa do estado das coisas, que não podia dizer ao mundo que tudo iria ficar bem. O melhor seria expulsar os filhos como, na verdade, tinha feito anteriormente. Evitar quem se ama para não ver reflectido o pior que existe dentro da nossa pele, pensava Laura.

Laura continuou no sofá e Jaime beijou-a na testa.

 

Vou buscar jantar, mãe. O Paulo fica aqui.

 

Nem um som. Apenas o estremecer das pálpebras, a noção de que existia a possibilidade de ser ouvido. Jaime estava confuso. Queria perguntar ao irmão a razão pela qual tinha saído da festa com Carmen, a ex namorada dele para quem Paulo só tinha adjectivos qualificativos negativos, mas a mãe, o estado da mãe, não lhe permitia. Ou talvez sim, por isso perguntou, virando-se para Paulo.

 

E a Carmen?

Ainda no restaurante, enfrentando as palavras de Carlota como alguém que evita um confronto, Carmen sente-se num cenário de guerra afectivo. Não pode dizer tudo, não sabe como, e tão-pouco se atreve a fazer perguntas. Nunca sente que mereça, seja o que for, muito menos que pensem nela com carinho ou com alguma percepção maior, elevação, inteligência, beleza. Sabe que driblou de forma eficaz o irmão do Jaime, tem a certeza de que sim, mas teria sido ela ou o álcool?

Paulo fora gentil, teria de admitir que a palavra acertada era essa: gentil. Bom ouvinte, incapaz de uma interjeição que a obrigasse a parar o discurso que, subitamente, lhe parecia crescer dentro do peito, um esgar, ou um vómito, pronto para ser expulso. A necessidade de expor, de dizer, falar sem controle, numa velocidade estranha e ele, sem interromper, atento, olhando Carmen nos olhos, à espera. Não podia dizer ao irmão que tinha cometido um erro, a ex namorada era, afinal, uma mulher interessante. Por isso, respondeu a Jaime com poucas palavras, sem desviar o olhar da televisão muda do apartamento da mãe:

Carmen? Não sei. Porque perguntas?

Saíram juntos da festa...

Isso não foi nada

 

publicado por Patrícia Reis às 21:33
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