Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2016

Fictiongram, continuação da continuação


Quando noves fora nada;  Laura culpa Paulo; o passado é identitário; o passado é estável; Laura e Carlos pertencem a Maria Luísa; a história de amor começa; o amor é cruel e depois cego; Laura fica com os pedaços; a fuga é a melhor opção; Jaime não sabe o que fazer; a realidade é um acto falhado


Nada. Jaime contabilizou as coisas passíveis de caber no nada por oposto ao infinito. Carmen teria beijado Paulo? Paulo teria afogado a cabeça nos cabelos dela, no perfume – sempre o mesmo – que ela usava? Saiu para a rua à procura de jantar para a mãe. Os cenários que a sua cabeça construía para o irmão e para a ex namorada eram um combustível que alimentou a sua existência durante alguns dias.

Paulo encarou a mãe. Frio. Quase glaciar na escolha das palavras e, em especial, no tom, começou a desfiar o rosário das queixas que ela não podia fazer a Jaime. Como se Laura fosse uma criança, tivesse diminuído e tão pouco fosse matéria humana capaz de se afundar na tristeza.

Tens de crescer. Isto não dá, percebes?


Laura percebia que assim seria mais difícil. Todos os dias seria mais difícil. Não encarou o filho, incapaz de lhe dar os dois berros que gostaria de ter força para dar. Falhara com ele de uma forma estrondosa, era o seu pior erro. Nunca o deveria ter tido, mas depois de ter abandonado o primeiro filho, como teria sido se não tivesse sentido Paulo a crescer-lhe das entranhas? Na altura, sabia, estava convicta, de que era essencial escolher a gravidez e o papel de mãe para cumprir com alegria. Não houve espaço para tanto, mas não podia dizer que a culpa fosse dele, de Paulo. Compreendia que, injustamente, o culpava. Ele não era o seu primeiro filho, mas teria de fazer as vezes de.

Que tipo de mulher chega aos sessenta anos sem sair de casa? Como é que se deixou enredar por uma situação tão pouco digna? Não saberia responder. Laura sonhava. Às vezes, sonhava com Coimbra, andava no parque da casa dos pais de Maria Luísa, subia às árvores com a ajuda de Carlos, tinha quinze anos e era feliz por ser feliz com eles. Havia no ar o cheiro do pão acabado de fazer, do jasmin e do riso deles. Os três. Juntos.

Coimbra era a moldura perfeita porque Laura vivia no passado como quem vive dentro de um livro preferido. Sente-se confortável. Há uma estabilidade na memória e, se esta falha, Laura é hábil, recorre ao mais provável. O “ pode ter acontecido assim” é uma lengalenga de enorme conforto e ela consegue visualizar mesmo o que não viveu. Carlos dizia-lhe, com um meio sorriso, numa antecipação do que seria o futuro, a existência de Laura:

Sofres de excesso de imaginação.

Laura ria-se e os dois, tão novos, longe dos dias mais atormentados, deixavam-se ficar à porta da biblioteca, impacientes, a conversar com certa pressa, atropelando as palavras até à chegada de Maria Luísa. Ela que os dominava. Ela que os tinha. Eram dela. Apenas dela.

Maria Luísa conheceu Laura com quatro anos. Tinham ambas o mesmo bibe azul escuro com gola branca, fita vermelha à volta dos bolsos espalmados na frente, restos de rebuçados, migalhas de bolachas. Laura nunca tinha visto ninguém que estivesse dentro do ideal de Beleza. E ninguém era imune aos olhos azuis imensos de Maria Luísa. Os cabelos certos, em caracóis, a perfeição do sorriso. Pensar que era a sua melhor amiga enchia-a de orgulho e manteve-se nesse estado de graça, um amor platónico feito de cedências e silêncios, escondendo qualquer potencial de rebeldia, até à adolescência.

Carlos surgiu mais tarde. Tinham quase quinze anos. Ele mudou-se com a família para Coimbra, ocupando a vivenda ao lado da casa dos pais de Maria Luísa. Por esta altura, Laura fazia parte, não se excluía de nenhum evento, festa ou celebração. Pouco importava de onde vinha. A família sem os pergaminhos de tantas outras não afastara Maria Luísa. Laura pertencia-lhe. As roupas que usava cabiam a Laura à justa, mas era para ela que iam antes de chegarem aos serviços de acção social da igreja onde ouviam a Palavra de Deus aos domingos. O mesmo aconteceu com Carlos, com o amor de Carlos.

Os olhos de água de Maria Luísa deixaram-no num fio qualquer de suspensão, olhava para ela e não queria respirar, queria sentir o coração na garganta. Carlos amou-a de imediato, como alguém que reconhece o caminho de casa às escuras, às cegas. Maria Luísa, apaixonada por um colega mais velho, uma fantasia que se podia cumprir, as famílias conheciam-se, pertenciam ao mesmo meio, desfez o coração de Carlos em poucos dias. Laura apanhou os pedaços.

Laura não se esconde debaixo dos lençóis como fazia em pequena quando tinha medo de ficar sozinha em casa, noites frias de inverno, a mãe a ir trabalhar às quatro da manhã para a panificadora que ficava do outro da cidade. Agora é uma mulher adulta e procura pensar-se assim: adulta. Por isso, arrasta-se pela casa, depois de ter deixado a cama num desalinho, sem vontade de nada até que... um repente, um plano, um formigueiro de entusiasmo ou de expectativa, até que a ideia se cristaliza na sua cabeça e sabe que é tarde, que vai fazer a mala e partir para Coimbra. Talvez não volte. Quem sabe? Pega numa moldura onde os dois filhos sorriem. Eram tão novos e tão pouco contaminados por ela que o choque dessa percepção quase que a trava. Laura ouve-se dizer

O que foi que lhes fiz?

Jaime regressa ao trabalho intranquilo. Não se consegue concentrar, perde a noção do tempo, deixa-se estar em frente ao computador. Tanto pensa na mãe como no irmão, depois em Carmen e na falta que não lhe faz. Carlota não lhe atende o telemóvel e o Facebook espelha o desinteresse total que o planeta respira de momento, ou é futebol ou coisas parvas, já não tem idade. Jaime quer mudar o mundo. Pelo menos o dele. O primeiro passo talvez seja voltar a falar com Carmen? Esta ideia surpreende-o.

Carmen não esperava ouvir a voz de Jaime, estava distraída, a rever exames de alunos, ao mesmo tempo em que pensava que os moldes da educação estavam errados, mas quem era ela para o dizer? Pegou no telemóvel de forma automática e ouviu


Carmen?
Sim?
Sou eu. Jaime.
Ah.

publicado por Patrícia Reis às 19:20
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