Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2016

Fictiongram, continuação da continuação

 

Quando o inesperado acontece; Laura abandona a cidade; Martim ignora Carlota; Carlota deixa que a emoção domine; Carlota deixa que a emoção domine

 

O silêncio não tinha uma dimensão possível de se medir. O tempo congelou. Ouviu-o respirar do outro lado da linha, porventura um suspiro, a noção exacta do disparate cometido. Carmen precipitou-se de forma juvenil

Olá, estás bem?

Não. Não estou.

Posso ajudar?

Ninguém pode.

Jaime, estás muito dramático, diz lá o que se passa.

Não tenho ninguém com quem falar.

Tens o teu irmão, o Paulo.

Saíste com ele.

Sim.

Foi bom?

Sim.

Jaime esperava outro tipo de resposta. Levantou-se e observou a vista hedionda que a cidade tinha naquele ângulo, apenas um espelhar da sua perturbação, cores esbatidas, lixo, contentores.

Ao mesmo tempo, Laura, do outro lado, apanhava um táxi e seguia para o comboio Mandou uma sms ao filho mais velho. Paulo iria perceber que ela levantara dinheiro na caixa automática, que abandonara a casa. Era um polícia da sua vida. Da pior forma, mas era. A mensagem dizia

Vou passar uns dias a Coimbra. Não te preocupes, tenho lá amigos. Diz ao teu irmão que está tudo bem. Não te zangues, Paulo.

Carlota não entendeu a seriedade do cumprimento, formal, quase gélido. Teria Carlota dito alguma coisa? Não, não podia ser. Martim olhou-a, quase indiferente, para surpresa dela, e cumprimentou-a com um ligeiro aceno de cabeça. Não se levantou, não lhe dispensou três segundos, continuou a falar com o seu interlocutor, um homem de fato que comia uma enorme posta de bacalhau. Martim estava a trabalhar. Carlota não era trabalho. A indelicadeza, contudo, magoou-a, ela que ainda sentia na pele a ponta dos dedos dele naquela noite de impulsos e pouca razão.

Não sabe o que lhe passou pela cabeça, tinha-se como uma pessoa capaz de se controlar, até mesmo controlada, se fosse sincera consigo própria. Atravessou a sala do restaurante como se fosse uma passarelle, muito direita, elegante nos seus saltos altos e parou junto de Martim.

Não me falas ao almoço? Só de noite?

Carlota... eu...

Deixa estar, Martim, a tua irmã explicou-me tudo. Ou quase tudo.

O momento de glória seria o segundo em que voltaria as costas. Porque seria então que se sentia tão frágil, os olhos a reclamar lágrimas. Estava demasiado sensível, nem parecia ela. Carlota saiu do restaurante. Já não conseguia almoçar.

Martim não percebeu a ousadia ou o gesto de confronto de Carlota como uma chamada de atenção, apenas como um incómodo. O que o perturbou foi a menção a Carmen, a irmã tão certinha, tão cheia de sabedoria, afinal uma professora assistente na universidade. Nunca entendera irmã. Talvez por não ser sua irmã. Criaturas de ventre distinto.

publicado por Patrícia Reis às 18:49
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