Terça-feira, 3 de Maio de 2016

Fictiongram, continuação da continuação

Martim tinha um propósito, era um homem com um objectivo e não o diria com facilidade, estava satisfeito com a armadilha que montara e, por isso, podia-se dizer que imperava uma característica mais extrovertida. Ria alto, bebia, batia nas costas de Jaime, contava histórias cujo desenlace garantiam risos e gargalhadas. Gostava de ver a atenção pendente de Carlota e o olhar quase intoxicado de Jaime. Seria fácil estabelecer um laço e, depois, com tempo, meter-se na cabeça de Jaime, tirar-lhe com jeito, de forma quase milimétrica, não se importava com isso, toda a informação que Carmen lhe passara. Martim sabia que existiam duas fortunas e ele, apesar do pouco pedigree, de se saber o filho que não era realmente, teria acesso ao dinheiro antes da irmã. Era crucial que assim fosse. Para a sua carreira.

O problema é que Jaime era um tipo desligado dessas coisas e Carmen tudo fizera para garantir que as conversas eram sobre eles os dois, a relação, o casal. Era essa uma das razões para Jaime ter terminado tudo. Não aguentava o casulo onde Carmen o que queria ter mantido, só dela, ali confinado, sem vida digna desse nome. De repente viu-se casado e careca, com filhos e um problema de ossos, um cenário de meia idade precoce que o assustou e foi isto tudo que acabou por revelar a Martim e a Carlota, já sob o efeito de muito álcool. Carlota podia ter defendido a amiga, é verdade, mas isso daria imenso trabalho, portanto optou por afagar o braço ao Martim, na esperança de que a noite terminasse.

 

Paulo tentou convencer Carmen que voltar para Lisboa de noite era uma tolice. Foi isso que se ouviu dizer

 

É uma tolice.

Ela sorriu e explicou que preferia apanhar o comboio das sete e tal da tarde, mesmo que estivesse escuro, era possível dizer que era a tarde do dia e não ainda a noite. Ele entendia? Paulo fez que sim com a cabeça. Não sabia se lhe devia dar boleia e regressar a Lisboa também, se devia ir com a mãe ao médico – tinham posto essa hipótese – para entender o que se passava com ela, se existia a possibilidade de um diagnóstico. Sentia-se dividido e, apesar disso, teve a percepção exacta de que não podia deixar Carmen sozinha. Importava que falasse e começou a fazer perguntas.

 

Não, não, a minha avó foi quem me salvou. Estava a ouvir os meus pais ontem à noite e percebo agora que não os entendo e tão pouco os conheço. Não sei nada deles. O Martim pode ser estranho, estouvado, parvo, porém sempre o tive como um irmão e não entendo como é que o criaram e nunca lhe disseram que tem uma mãe e, já agora, também não entendo a tua mãe, como é que se dá um filho? Desculpa, não estou a criticar, ou melhor, estou, mas terás de me desculpar, não percebo algumas atitudes, eu nunca abandonaria um filho. Claro que a tua mãe era muito nova, muito mais nova do que eu sou agora, e teve o Martim e depois teve-te a ti e ao Jaime e fez a vida dela, mas mesmo assim, sabia que o seu primeiro filho estava aqui, em Coimbra. Não quero entender. Só quero voltar para Lisboa.

 

Paulo tentou reconforta-la, mas Carmen não estava convicta de que fosse possível aplacar qualquer sentimento. Tudo estava ao rubro, era uma guerra antiga e interior: Martim não pertencia, não encaixava e havia uma razão para isso. Quando conhecesse Laura, o irmão iria, por fim, encontrar um destino, porque – Carmen acreditava nessa ideia – mãe é sempre mãe. Paulo entendera que Carlos, Maria Luísa e Laura não tencionavam dizer nada a Martim. Tentou que Carmen fosse razoável. Ela disse

É o teu carro, mas se vais comigo, eu guio

 

Jaime teve pena de que a conversa tivesse sido tão curta. Gostaria que o irmão lhe explicasse mais coisas, coisas concretas, mas Paulo mantivera a ideia de que era melhor falarem olhos nos olhos. Fora essa a expressão – olhos nos olhos – e Jaime entendeu de imediato que tudo se prendia com a mãe, fosse o tudo o que fosse, Laura tinha este dom de lhes desarrumar a vida, porém desta feita Jaime estava convencido de que existia algo de grave. Paulo pareceu-lhe cansado ao telefone e, de repente, ouviu-o dizer

Vou para Lisboa agora. Levo a Carmen.

A Carmen está contigo?

Eu depois explico-te.

Pensei que tinhas desaparecido por causa da mãe, uma bodega qualquer que tivesse feito, para variar, mas estás-me a dizer que estiveste fora com a Carmen? Incrível. E tu nunca gostaste dela, Paulo.

Agora gosto.

Desde quando?

Desde a festa da tua empresa.

Mas... Olha, eu nem sei o que te diga.

Falamos quando eu chegar.

Talvez não seja preciso, não tenho nada a ver com a tua vida privada.

Não sejas parvo, Jaime.

Parvo...

Não aconteceu nada entre mim e a Carmen.

Aposto que não.

 

Paulo deixara Carmen conduzir não por opção, mas por não querer discutir. Percebia agora que o espaço de conflito na sua vida – além da mãe – estava reduzido ao consultório, no consultório os doentes podiam chorar, gritar, alguns até se aborreciam com ele e Paulo mantinha a pose. Há uns meses que tratava uma mulher que, recentemente, lhe dissera em consulta

Não tem outra cara? Só essa cara de parvo? Eu estou aqui neste disparate e não se chateia comigo? Você não é humano.

Paulo sentia-se humano. Sabia que tinha de controlar as emoções com os doentes, estava treinado para tanto. E existiam doentes de quem não gostava, a quem talvez desse dois berros mentais, porém nada transparecia. Era um bom actor. Jaime achava-o um bom actor, sobretudo agora, com a proximidade de Carmen. Não podia dizer que não gostava da ex namorada do irmão, não podia dizer que a sua intensidade o esmagava, que era um possessiva e controladora. Agora entendia-a melhor.

publicado por Patrícia Reis às 14:44
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