Terça-feira, 28 de Julho de 2015

Fictiongram, outros capítulos

onde a matemática não salva

Seis meses? Não, não, as palavras atravessam a mente como picadas e ela agarra-se com mais força ao varão metálico da carruagem. Pode ser que parem. As dores. E as palavras. São seis meses, por ter sido ontem, e são seis anos se quiser ser exacta. Carmen despreza a exactidão. Faz contas. Todos os dias faz contas. Seis meses são 182 dias, 4368 horas, 262 080 segundos.

 

onde o planeta desconhece o conceito de Paz

 

Em seis meses o mundo berrou a cada dois segundos. Mulheres violadas. Crianças a morrer de fome. Mais um conflito armado. Dos 207 países do mundo, crê que são tantos, Carmen suspeita que nenhum conheça o significado da palavra paz. Apenas em oposição à guerra. Estes pensamentos descansam-na. Quarta estação, quinta estação... Mas não são seis meses, são seis anos. O seu reflexo no vidro comprova o tempo. Deixou o cabelo crescer sem compromissos. Consegue ver, no vidro, consegue ver os brancos na raiz, mesmo ao centro da cabeça. Carmen sabe que era uma mulher bonita. Agora é uma espécie de mulher que em tempos foi bonita.  É ela quem se diz “espécie” para ajudar numa classificação impossível.

 

onde a mulher sabe que não é como as outras

 

Não sabe se é uma mulher como as outras. Se fosse, talvez... e talvez não. Carmen sabe o que os outros pensam dela e o que ela pensa dela é igualmente mau. Mantém os gestos diários para não dizer que não vive. Ontem discutia a construção de uma família. Hoje, ao ver a mulher à sua frente com a criança ao colo, inveja-lhe o peito generoso, as tranças metidas na cabeça, miúdas, a pele luzidia, as unhas cuidadas que afagam o menino num sossego de chucha. Ela podia ser uma mulher assim. O corpo disforme, a generosidade do peito, a criança acabada de fazer uma birra.

 

onde a cara fica cheia de sangue que ninguém vê

 

Sexta estação. Não se pode distrair. Afasta o olhar da mulher, de si, no vidro, encara a ponta das botas e percebe que as calças estão sujas. É a chuva. A chuva como uma zanga do céu que a alcança, aquela força desmesurada, um soco pode atingir a cara. Carmen passa a mão no rosto. Fecha os olhos. Ainda sabes quem eu sou?

publicado por Patrícia Reis às 18:05
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