Há um canto escuro que é só teu.
Coloco a mão, discreta, e vou junto a ti. Sinto o teu pulsar. É um conforto. Uma forma de viver. Quando decidi que irias caber na minha mala era apenas para te ter sem te ter.
A tua fotografia emoldurada, secreta, salva do mundo e dos outros. Acredito que a tua mulher te tenha achado só dela. Como uma marca, uma cicatriz, uma ferida aberta. Penso nisso, sabes?
Ela a dizer: era só meu, só meu, só meu. Nessa repetição ela encontra, estou certa, um conforto; eu descubro a maior mentira de todas.
Dizem que desapareceste há mais de três meses. A polícia não tem pistas e abandonou a teoria de rapto.
Sinto-me tão confiante que até já vou trabalhar.
Depois de te ter morto tirei-te esta fotografia e coloquei-a, amorosamente, como fundo da minha mala preta. Estou de luto por ti, compreendes?
Na mala enfio ainda um casaco, por causa do frio, um pequeno frasco de perfume, um baton rosa sem graça e a minha carteira.
Sinto-me uma mulher rica. A mala preta é um reflexo do que tenho de melhor: a tua morte.