Ia agora começar a escrever, palavras só para ti. Agora mesmo. Desisti por fraqueza, compreenderás mais tarde, estou certa. Corro como uma cega nas palavras e não tenho pressa de chegar seja onde for. Não há palavras para ti. Secaram-se na angústia de me explicar. Talvez seja melhor começar pelo início. O início é sempre um momento de verdade, algo louco, imprevisto. Como um fado que se canta sem se saber a letra, na comoção de reconhecer algo sem, ao mesmo tempo, conseguir dizer o poema e a sua intenção inteira. Todas as histórias de amor, como as cartas, já se sabe, têm uma dimensão ridícula, sobretudo quando terminam. O fim do amor é dispensável e não tem possibilidade de se alcançar no segundo exacto da sua morte. É uma ideia errada, repara, eu sei exactamente quando nós morremos. É uma imagem fixa que guardo. Não como uma fotografia, porque há o som e o estremecer do coração, coisas de mulher, dirás. Seja. O final nunca é só triste, é o princípio de uma luta e isso eu não sabia. O destino é ou não é o que se quer? Pouco importa. Passaram-se anos desde que o amor nos morreu. Se não foram anos, parecem-me e isso, o peso do tempo, a lentidão mortal de não conseguir sair daqui, torna-me prisioneira disto e, logo, de ti. Fiquei à espera de algo; de uma viragem do vento, um encontro mais feliz. O encanto que existia não o encontro agora. Seja onde for. Vejo-me a minguar, como diria a minha avó. Já te contei da minha avó? Talvez não. Não tivemos tempo para tudo, afinal. Era mestre na arte de soprar o vidro, tarefa nada habitual nas mulheres, um ofício de homens que herdou do marido. Ainda me lembro das coisas extraordinárias que saíam desse sopro controlado e sempre invejei a delicadeza do gesto. Não queres ouvir nada disto? Eu sei. Vamos voltar ao início, como prometi.
Trazias um livro de poemas contigo. Era uma ousadia quase feminina, se pensares. Sim, tinhas ainda um molho de jornais, incluindo os desportivos. Perguntei se era literatura de fim de semana e tu sorriste com o rosto todo. O amor começou ali. Colegas são as putas, dizias tu. Portanto, éramos parceiros de amarguras num open space sofisticado, empresa moderna com cestos de fruta para os funcionários. Isto basta como definição porque o que fazíamos, uma vida inteira, dia atrás de dia, pouco nos importava. Pelo menos era o que eu achava então. O emprego pagava os iogurtes e cumpria a função social à qual estamos obrigados. Só isso. Estava longe de suspeitar que querias mais e que tinhas em ti a ambição terrível de subir, subir até ao pódio do poder que pode desfazer as cores da realidade. O poder pode ser um vício, sei-o agora. Vi-te em conversas formais, repletas de indirectas e subserviência, conversas que te levaram ao clube dos homens, directo a assessor da administração e, depois a director geral. Foram anos, dirás, já sei que sim. Porquê invocar este passado e ser sincera? Porque no começo é importante dizer tudo e no fim é urgente.
Uma noite, sozinhos, experimentámos a alcatifa do gabinete do chefe. Olhei-te nos olhos, directamente para dentro de ti, invadindo o teu corpo sem pudor ou vergonha, disposta a tudo por estar ali, no momento, encaixada em ti, na perfeição; sentindo uma pertença que nunca antes me chegara. Não, não era a minha primeira vez, até nos rimos disso, uma mulher com quarenta anos, mesmo que recatada, tem aventuras ou, no mínimo, um passado erótico. Não inquiri sobre o teu por o conseguir adivinhar sem esforço. Era público. Podia contar, pelo menos, doze relacionamentos que nunca escondeste. Por estares ali, no mar azul da alcatifa, pensei que seria o início de uma relação. Ingenuidade? Não. Quando se ama crê-se. É mesmo um princípio fundamental, acreditar que somos no outro o tudo e o nada. Pode ser efémero e ilusório, já sei, pode até durar uma noite, mas é assim. Nada disto te importa agora. Eu sei. Vivo eu aqui nesta redoma de memórias inúteis apenas por vazio. Toda eu estou oca, o meu corpo mirra, as peles secas e o cabelo sem brilho. Uma velha. De certa forma. Ser velha antes de ser velha é um costume meu. Desde miúda. Porque me apaixono sempre até ao fim, com tudo o que tenho e, quando me vejo só, não me encontro, pareço um daqueles bonecos dos desenhos animados, há rastos de mim que ficam pelo caminho, como riscos de todas as cores. É uma pena, dizem-me. As mulheres devem, leio por aí, ser independentes e autónomas. Dá-me vontade de rir, sabes? Por ter sido educada para casar e ter filhos, para me organizar sempre em função de uma relação. Não ter alguém na nossa vida é uma diminuição do nosso papel no mundo. O amor agora quer-se rápido e eu entendi isso no dia seguinte, quando chegaste com o livro de poesia e os desportivos, sorriso aberto. Só faltou chamares-me colega. Puta senti-me de imediato. Era óbvio que a noite passada nunca acontecera. O que terás dito à tua mulher? Consigo imaginar com facilidade, sabes? Oiço-te mentir há anos, ao telefone, coisas de nada, mas que me espantam sempre porque tens o mesmo à vontade com a falsidade que pretendes ter com a verdade das coisas da tua vida. Repara bem, as coisas da tua vida. Sei quase todas. Fui coleccionando pedaços de ti e quando me entreguei a ti, naquela noite, sabia que a ruína tinha começado. Sou um prédio a desmoronar-se, estás a ouvir? Com o teu livro de poesia debaixo do braço, as tuas graças de sabedoria e cultura de algibeira, acabaste por me rodear das mentiras que eu já conhecia. Escolhi não pensar. Aceitei o teu sorriso aberto. Durante essa semana esperei um gesto. Um almoço, um pedido, uma graça. Nada saía de ti, estavas completamente vazio. E antes que o mesmo acontecesse comigo tomei a decisão de te humilhar, ali mesmo, no nosso local de trabalho, este que tanto estimas e onde pontificas com alguma importância. Acima de ti há apenas três homens. Decidi que se não me dissesses nada um destes seria contemplado com um dos meus sorrisos, um vestido decotado e todo o descaramento que nunca tive. À tua frente, claro, tudo isto se passaria à tua frente para que desses valor, para que te doesse. Repara que eu, ingénua, ainda acreditava na dor, na possibilidade de te provocar uma dor tão funda que todo o teu corpo se ressentiria. Ficarias com menos uns centímetros. Tudo isto se passava na minha cabeça enquanto te via, na sala de reuniões, toda em vidro, a dirigir uma reunião, ou então ao telemóvel sorrindo, falando com outra pessoa junto à mesa do café. Coisas destas. Para pôr fim ao meu teatrinho pessoal chegaste dengoso e a pergunta foi: “Queres tu almoçar com este fariseu?”
Todos os cenários desfaleceram. Eram de manteiga, como um molho de cobertura de bolo. A maldade desapareceu. O meu decote no sítio certo, a tua perna contra a minha debaixo da mesa do restaurante. Tentei, juro-te, não fazer muitas perguntas. Fizeste então as despesas da conversa. Fiquei a saber que gostas de levar a tua filha ao parque. Que fazes compras todos os dias por acreditares que os produtos frescos são melhores do que os embalados. E ainda que a tua mulher estava a redecorar a casa, tendo mandado pintar o primeiro andar todo. Estranhei a menção a um andar, mas muito rápido, tu esclareceste que vives numa vivenda geminada perto do rio. Calei a minha perplexidade. Onde é que estava o homem que me olhara com um amor infinito na noite em que os anjos desceram sobre mim? A conversa era casual. Apenas uma forma de colocar tudo no sítio certo. Na verdade, o almoço era um recado: não estou disponível, não estragues isto, sê uma boa menina. Ora, ser uma boa menina está para lá das minhas capacidades e, sinceramente, não tenho idade. Fiquei a remoer nas tuas palavras, a ver se encontrava sub-textos a que me agarrar, pequenas deixas que algumas entoações podem transportar. Afastei as fantasias de forma pragmática. Um dos nossos superiores hierárquicos entrou no restaurante. Tu ficaste atrapalhado, cumprimentaste, eu calada. E já estavas a pedir a conta, arrependido, quem sabe. Uma vez na rua andámos os três quarteirões até ao emprego sem dizer nada. O amor traz muito lixo. O silêncio é eloquente. Já sei. Deixei-te subir no elevador sozinho, fiquei para trás a ver uma coisa na mala, a fingir que lia uma mensagem no telemóvel. Fiz-te um sinal com a mão e tu foste. Sim, senti-me uma puta outra vez. É um sentimento recorrente. Afinal, perguntarás, o que é esperava, o que é que queria de ti? Um pouco de amor? Soa até ridículo. Nunca pensei que divorciarias por mim, que abandonarias o teu castelo familiar, que abdicarias da paternidade. Ainda não percebi quando é que a paternidade passou a ser um porta-estandarte na vida dos homens. As mães são o que são. Os novos pais, para ser honesta, são muito aborrecidos. Não por fazerem ou por tentarem, mas por se compararem às mães. De repente, os homens não podem viver sem os filhos. Podem viver como tu vives, numa relação estragada, cheia de bolor e musgo, isso não importa, porque o amor dos filhos é superior. Desde quando? E onde estão as loucuras que se fazem por amor? Atormentada por estas interrogações mesquinhas, sentindo-me mal e má, em simultâneo, voltei ao dia-a-dia. Tu passavas e dizias bom-dia, o tal sorriso aberto. Duas semanas depois de termos feito amor, uma semana depois de termos almoçado e teres anunciado que és um homem casado e homens casados não dormem em camas alheias, apenas em tapetes de gabinetes obscuros, mas o recato da casa é indispensável, setenta e duas horas depois de ter pensando e repensado a minha vida, decidi matar-te. Por isso te escrevo, compreendes. Porque matar-te apenas não me chega, tenho de contar toda a história para que faça sentido, para que seja conhecida e falada. Passarás a ser uma lenda da mediocridade masculina. Não achas graça? Claro que não, tu até lês poesia e levas a tua filha ao parque, tendo o cuidado de accionar o modo silencioso do teu telemóvel. Nada perturba o pai e a filha, olhem que bonito. Sim, a ironia talvez não seja o meu forte. Já não peço desculpa, apesar de tudo. Cresci um pouco com tudo isto. Deve ser a idade ou a ilusão do tempo, as camadas de horas em que pensei em ti, concentrada em ti, moldando tudo ao teu nome e ao teu corpo para descobrir que, afinal, a tua entrega fora apenas um modo geral de actuar, nada de novo, automático e masculino, indolor. Podes ler poesia. Não sabes nada das mulheres. Matar-te é bastante mais fácil do que imaginas. A morte começa na colecção das tuas mentiras, das atrocidades que, diariamente, cometes sem qualquer pudor. Uma palavra aqui, um email ali. E eu, qual espião profissional, recolho tudo. O teu forte são as contas, não é? Tens a responsabilidade do relatório e contas, do balancete. Tabelas e quadros são a tua especialidade. Não os entendia, agora consigo desvendar-lhes todos os segredos. E aqui começa a tua morte. Sei de onde saiu o dinheiro do projecto brasileiro. Sei para onde foi. Almocei com o fornecedor a quem pedes luvas e fiz uma lista de mais oito que, certamente, perante um decote em condições tornarão a minha missão tão mais simples. Uma mulher faz o que pode, compreendes? Posso ser apenas uma funcionária, sim, um número na folha de salários, mas nunca me faltaram os neurónios; de certa forma a ideia de vingança aguça os neurónios e estes fervilham de ideias. Já te disse o que vou fazer? Ah, espero mais um pouco. Deixa-me contar a história da tua mulher, porque tem graça, vá lá. Sim, a tua mulherzinha que redecorou o castelo, paredes cor de alfazema, cortinados com forro duplo para evitar os raios solares, a tua mulherzinha com os cabelos pintados de loiro, a catrapiscar o rapaz da recepção, com a mala Louis Vuitton, de imitação, comprada na feira, claro, a dizer que é a tua mulher e que vem fazer uma surpresa. Pois eu, muito cândida, apresento-me, sou tua colega, sei exactamente onde estás, porque não me acompanha. A tua mulherzinha no elevador, ajeitando o cabelo, verificando se o mostrador do relógio está no sítio certo, centrado no pulso vagamente papudo, a espreitar os meus sapatos, a minha cor de unhas nos pés pequenos. Sim, os meus pés pequenos que te fazem sofrer. Pobrezinho. Levo a tua mulher pelo open space como quem leva o Óscar para casa, ela é a minha bonequinha de estimação e, quando chego à porta do teu gabinete, com o meu melhor sorriso, abro sem bater e vejo-te branco a tentar fazer desaparecer o ecrã do computador. Sim, eu vi, não te preocupes, já recolhi o histórico do teu computador, sei de todos os teus sites pornográficos. Confesso que a minha preferência vai para a encomenda de uma pérola cinematográfica com o título: bocas gulosas. Muito educativo. Poético. A tua mulherzinha agradece-me e eu saio disparada para o meu sítio. Tu morreste ali, um bocadinho, mas não o suficiente. Por isso te digo que será pior. Juntei as papeladas que consegui, todos os teus esquemas, as pastas que tens num servidor supostamente secreto, as contas e as saídas de dinheiro (fiz-me passar por tua mulher e falei com o teu gerente de conta, não sabes? Pois é, a tua password para tudo é o nome da tua filha. Se ela soubesse. Que não saberá nada, tem agora cinco anos, não se recordará de ti, vais ver. O tempo faz milagres). Agora que tenho tudo isto em meu poder só me resta uma solução. Expor-te que é o equivalente a matar-te e depois, desculpa o mau jeito, ficar com o teu lugar. Estás preparado? Claro que não, eu compreendo. Tens o teu livro de poesia e os desportivos debaixo do braço, é sexta-feira, tens pressa de sair. Eu subirei dois pisos, até à administração e não será a tua cabeça numa bandeja, qual Salomé, nada disso, mas será um momento delicioso de poder e só isso me bastará para terminar este amor. Sim, o amor quando chega ao desprezo já não vale, pode ser amachucado, rasgado e até esquecido. Assim, amor, esquece-me, esquece-me hoje que eu já não sei quem és.