Sexta-feira, 17 de Julho de 2015

onde o som rasga a pele (3)

 

Carmen fica ao espelho e, imprudente, acende um cigarro que não fuma. Ela diz que não fuma. Vê o fumo, pequeno, um rasgo apenas, quebrar a sua imagem. Não se reconhece. Passa a mão esquerda por água, com a direita segura o cigarro. Fica assim algum tempo. Ouve o gato. Atravessou o corredor. Depois de ficar sozinha começou a temer o bicho. O silêncio dele. Comprou-lhe uma coleira com um guizo. Considerou várias vezes se o barulho não o irritaria, se não o levaria à loucura. Um som metálico, um tilintar que podia ser de fada ou de duende. De bailarina exótica. O gato salta para o parapeito da banheira. Com a pata procura água junto à boca da torneira. Carmen observa-o, sente o fogo das cinzas a arder perto da pele, o cigarro que termina.

publicado por Patrícia Reis às 19:03
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