Estás a ver aquele buraco?
Às vezes, o buraco parece ser o mundo.
Outras vezes? Sim, outras vezes encontras uma poça e podes chapinhar.
E chapinhar, acredita, é bom.
Acompanha-se com risos e gestos dobrados, o corpo a acompanhar a brincadeira.
Tens ainda buracos no casaco e na camisola preferida, numa péuga, luva, ou até no coração.
Não podes fazer nada?
Pega numa linha, acerta com o buraco da agulha, e tenta remendar o melhor que conseguires.
Depois de doer, aterras numa superficíe rochosa, com buracos grandes e pequenos, e manténs-te atenta, nada de andares no fio do arame, és um cavaleiro e o cavalo salva-te, vai pelos recantos mais seguros e há sempre quem te agarre do outro lado.
Estás a ver aquele buraco?
São os meus braços prontos para te abraçar.
E aquele ali?
É a tua mãe e o teu irmão.
São os teus amigos em bando, todos juntos, parecem uma mancha, mas são eles, vê melhor.
Não te assustes. Talvez corram para ti.
E, quando deres por isso, estás a rir: a mostrar o buraco da boca.
Qual é o caminho?
De poça em poça, a chapinhar, com um riso no canto da boca, um riso a nascer, a vida faz-se aos poucos.
Para o ano cá estaremos.
E no próximo.
O resto da vida com bolos que ficarão cheios de buracos, dedos de crianças que furam a camada de chocolate.
Consegues ver?
Parabéns, querida, quando te disserem que todos os buracos são maus, pensa duas vezes.
Beijo-te daqui