Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

Para Eduardo Prado Coelho onde estiver

Querido Eduardo

E passou-se outro ano. A vertigem do tempo é quase chocante. Há uma velocidade nas coisas de hoje que só pode ser prejudicial. Na minha cabeça tenho um neon em construção com o verbo parar. Gostaria de parar a falta que fazes. Não, não é verdade, é apenas um refúgio emocional, tu perdoa-me.  Importa que faças falta para que possamos saber que há pessoas que não têm tempo.

Não sei que novas terás disto aqui em baixo - e digo em baixo porque? não faço ideia, mas deixa estar -, acontecem tantas coisas por segundo que uma pessoa quase que se perde. Conto o que sei que te fará sorrir: a MM e eu lançamos a Gramática do Medo. Houve polémica com a capa, uma pintura maravilhosa do Dino Vals, duas mulheres mutiladas, duas mulheres que nos olham e têm, ao mesmo tempo, algo de doce, de eterno. O lançamento do livro foi o mais rápido da história dos lançamentos, muito aflitas as duas, já sabes como é, muito comovidas com quem apareceu. Dizem que os artistas precisam de palco e pode ser que sim, creio que nós temos mais medo do que outra coisa. Seja como for, fui feliz enquanto escrevemos mesmo que a vida me tenha atropelado aqui e ali. A MM seguiu para uma tradução (belíssima!) e eu para a vida na 004 e para a luta do costume. A nossa Inês lançou um livro de contos muito bonito, tem uma cápsula protectora perto de Óbidos, o peito cheio de orgulho justificadíssimo na Laura, e anda na luta. Luta é aliás a palavra. Não com a conotação política do costume, é certo, mas é uma luta.

A vida está cara, as possibilidades não são as que eram, a mesquinhez grassa, a maldicência é mais do que muita. Dirás que nada mudou. Digo-te que sim, estamos piores. Nem um marciano encontraria algum encanto no estado do mundo. Ouvem-se relatos de desespero, as notícias são a banalização total da violência porque o mundo chegou a este ponto: matar é banal, abandonar é normal, discriminar é normal. Toda a situação dos refugiados e dos imigrantes me faz pensar que são os novos judeus, que estamos a viver o impossível. Mandela disse que há coisas que parecem impossíveis de acontecer, até acontecerem. Acontecem impossíveis todos os dias. Penso que se o Donald Trump ganha as eleições norte-americanas estaremos em guerra aberta, não disfarçada como a que temos agora, em muito pouco tempo. Penso em mudar de país. Tu que achas?

Mas não ligues ao que escrevo, pode parecer que estamos envoltos na escuridão. Não é tudo mal, nunca é, uma palissada como se sabe. Durante este ano tivemos momentos bons. Almoços, jantares, concertos, exposições, livros maravilhosos, alegrias com os miúdos (acreditas que o Sebastião já está a trabalhar num jornal? É incrível mas dá-me a dimensão do tempo, é um homem, não é um miúdo). Fomos ouvir o Trifanov na Gulbenkian e tu terias pasmado com o talento imenso dos 25 anos deste pianista de excepção. Fomos ver uma exposição interactiva de Caravaggio e perdemo-nos duas horas a admirar. Podia ainda contar-te da Sicília e dos momentos calmos que temos vivido a dançar, a escrever, a ver o mundo passar. Temo maçar-te. Já te disse que tenho saudades tuas? Muitas. Deixo-te estas linhas, peço-te um sorriso desse lado. Um beijo grande

publicado por Patrícia Reis às 10:30
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