Quarta-feira, 28 de Maio de 2014

Podia

Eu podia contar-te tudo. Numa pose composta, sossegada, em meio-tom, a gerar cumplicidade, num jogo de construção de algo íntimo no qual acreditarias por impulso. Então, nesse instante, o meu corpo desenharia um semi-arco, as costas curvas, um prenúncio de confidência, algum mau-estar, onde a ideia de culpa se mistura com o pedido de perdão. Perdão é pouco: salvação. Gosto mais. E no teu olhar talvez haja esse mistério que carrega a possibilidade de me salvar no momento em que te conto a verdade por inteiro, todas as minhas maldades, os meus desvios, as mentiras e as outras coisas que um dia chamaste sedução. E eu não entendi. Estou a correr, eu sei, espera mais um pouco.

Vê como agarro as mãos, uma na outra, as unhas roídas, as peles salientes, o verniz gasto, um verniz de velha. Não é a imagem que tens de mim? Quando te contar tudo aproveito a ocasião e mostro-te o meu corpo. Não penses que o conheces. Agarrá-lo e despejar o que há em ti de animal não te dá qualquer poder sobre mim, apenas sobre o meu sexo. E o meu corpo está para lá do sexo. Se quiseres faço-te um mapa. Se quiseres: tudo o que mudou, o que significa cada cicatriz, onde nasceram novos sinais, onde me dói mais. A dor é fundamental. Posso disfarçar, claro. Disfarço sempre. Mas agora não. Como tu não estás é mais fácil. Num exercício infantil prometo-me: conto tudo se chegares cansado; se disseres olá, se trouxeres o fato castanho; se ainda conseguir. Pode ser assim?

(texto para o livro Díptico # 01 com fotografias de Cláudio Garrudo e textos de várias mulheres)

 

publicado por Patrícia Reis às 00:38
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