O que ela queria era que ele fosse pentear macacos, que desaparecesse num beco sem saída, que uns tipos enormes o espancassem até ficar roxo e empapado em sangue. Queria ir ao seu funeral, ficar na segunda fila das pessoas vestidas de negro, de óculos escuros, séria e triste, como uma amiga qualquer. Gostaria de dar os pêsames à mulher e dizer
Era um bom homem...
Bom na cama, pelo menos comigo, acrescentaria em pensamentos maldosos. Olharia para aquele par de crianças que poderiam ser suas, mas que não o eram e pensaria
Coitadinhas.
Talvez ele fosse convidado a dar aulas na Papua, na Nova Guiné.
Poderia ajudá-lo com os caixotes de livros e papéis, lembrar-lhe-ia que as diskettes azuis eram as dos apontamentos pessoais.
Nunca mais ficaria especada junto ao telefone preto à espera que lhe ligasse.
Iria à sua vida: um vestido com decote vermelho sangue e atrever-se-ia aos exercícios mundanos.
Acharia um homem que a satisfizesse, um que não tivesse vida, apenas um corpo.
Um homem que não falasse. Beberia whisky e não passaria horas a fixar pormenores do rosto dele e, principalmente, poderia suportar o toque do telefone sem se lembrar do seu nome, poderia dizer distraídamente, sem emoção
Estou? Quem fala?
Era isso. O que ela queria era que ele fosse pentear macacos.
(texto recuperado de uma diskette, datado de 1994)