II para MM de PR
A mulher na recepção chama-se Pia. Encara a mulher sem espanto ou novidade, é apenas uma mulher com uma mala preta, sem mala, sem homem. Uma mulher que exibe um cartão de crédito e precisa de um quarto. Mariana pergunta
Chama-se Pia? Está aí, no crachá.
A outra responde num fio de italiano com sotaque de Leste e acrescenta que é Dinamarquesa. Do Norte, portanto. Não de Leste. Mariana procura no sorriso torto conter o momento de fugir, ter de esperar pelo pagamento, a máquina em comunicação com qualquer banco. Tudo viral. Por fim, o papel sai. Ela assina. Pia dá-lhe um outro cartão, quarto 314. Mariana abana a cabeça. Não pode ser. 314 não pode ser. É um número que pertence a outra história e, não podendo explicar que amou num quarto com o mesmo número um homem que era de outra, mas que não fora uma traição, antes uma necessidade, um entendimento. Não pensava muito nisso. Mariana queria-se conservadora. Não se acreditava desse modo, mas disfarçava. Sara seria capaz de compreender, Sara tem o dom de compreender todas as mentiras e desculpá-las por considerar que são efabulações que resultam da solidão, do desespero. Sara não irá entender a sua fuga, mas haverá nela o sentimento imediato de aceitar. Por ser assim. Aceita. Como aceita o fumo dos outros e por isso ter concluído que os cigarros também a ajudariam a passar despercebida. Uma vez disse-lhe
Tu achas que fumar dessa forma te torna invisível?
Acho.
Não me parece.
É natural. Tu só fumas quando estás nervosa e, assim, todos sabem que estás nervosa. Eu fumo sempre.
E estás sempre nervosa e a querer fugir.
Mas fumo. Sempre. Com os outros. É um ritual.
Sara, ritual é ir à missa.
Lá estás tu com essas coisas.
Não crês? Em nada?
Em ti.
Não. Responde-me, Sara: acreditas?
Não.
E não te sentes mais sozinha?
Deus não me faria companhia.
Mariana pareceu quer continuar a conversa. Calou-se e começou a fumar. Agora, longe de tudo, os cigarros eram constantes e bebia todas as noites. Um copo de vinho tinto. Tal como Sara fazia. Depois, às escondidas, comia uma tablet de chocolate e pensava que coincidia no tempo com os gestos de Sara, tão longe, tão idênticos. Costumavam teimar na ideia de que eram um avesso. Mentira. Mariana sabia que o que as afastara fora aquele homem. Mais velho. Um homem que ambas tinham amado. De formas distintas.
No quarto da residencial onde Pia comandava as tropas invisíveis, já que ninguém mais parecia ali estar, Mariana despiu-se e tomou banho. Sentiu o nódulo no peito e colocou a mão no pescoço. O colar que lhe falhava, como marido lhe tinha falhado. Sara saberia dizer a frase certa. Mariana olhou-se ao espelho, pouco embaciado do duche rápido, e disse alto
O meu nome é Sara.
Tal e qual como tinha dito a Pia quando se registou, mesmo sabendo que o nome no cartão não correspondia. Pia não reparou? Fingiu não reparar? De repente, a falta de cuidado da outra, irritou-a. Seria mais fácil ser outra pessoa? Não. Pelo menos se escolhesse ser Sara, a tristeza de Sara, a morte esperada de Sara. Fechou os olhos e viu-os juntos: Sara e o seu marido.