Domingo, 18 de Maio de 2014

Roga-se

Roga-se a quem...

No areal o sol criava as ilusões próprias da reverberação, ondas de calor provocavam pequenos enganos, atiçando a imaginação de uns, confundindo outros. Adultos e crianças saíam da agua e subiam o declive de areia molhada, pedras e restos de conchas, franzindo o sobrolho, em estado de vigia, em busca do guarda sol, da toalha, da família. No mar, exibindo efeitos de uma vaidade aquática, uma mota de água. Um pouco mais à frente uma gaivota de pedais com um escorrega incorporado. À beira mar dois homens observavam um grupo de crianças. Uma mãe construía uma pista para uma perigosa e concorrida competição de caricas, com cuidado, a mão alisando a areia, as crianças à espera com as caricas na mão. Um bebé de fralda molhava os pés e fugia, rápido, rindo alto. O cenário do verão concentrava-se naqueles metros quadrados de famílias, de sombrinhas às riscas, coloridas e em apetrechos de época, bóias, baldes, raquetes e bolas para desafiar os adultos ao fim do dia. Não havia, porém, uma algaraviada descontrolada, a praia, generosa, abrigava cada história com extensão, cada um no seu sítio. Não havia uma concentração de meter medo ou a sensação de aperto. As pessoas deitavam-se ao sol e conseguiam sentir-se sozinhas, sozinhas à espera de ficar secas e brilhantes, bronzeadas e bem dispostas. Umas liam em cadeiras coloridas, outras dormiam simplesmente. Era o fim do verão e esse fim, temido por uns, ansiado por outros, podia ser o pretexto para mais uma ida ao mar, uma bola de berlim com creme, uma salada de tomate ao fim do dia temperada com cerveja ou vinho branco. E, claro, havia sempre espaço para gelados. Gelados de chocolate, de morango, com bolacha, em cone, em misturas de sabores. O Verão permitia tudo isso e o passar das horas era quase indiferente.

De repente, inesperado, um altifalante gritou para o areal

Perdeu-se um menino de cinco anos. Chama-se Carlos, tem um fato de banho castanho com flores. Roga-se a quem o encontrar que se dirija de imediato ao banhista

Por momentos, a praia agitou-se, as pessoas levantaram as cabeças, verificaram a informação, repetiram-na. Uma mãe disse a quatro jovens

Sigam para aquele lado, procurem o menino.

Uma mulher, mergulhada no seu livro de capa amarela, tentou manter-se serena sem qualquer sucesso. Levantou-se e encarou o resto da praia. De certeza que os pais estavam desesperados, de certeza que procuravam o Carlos de cinco anos com afinco. Pensou nisto por segundos e depois começou a andar. Não tinha um destino exacto, seguiu pela parte de cima da praia. Percebeu que o marido a seguia. Não trocaram uma palavra. A mulher pensava na criança perdida, imaginava-lhe o rosto, o cabelo escuro, o sorriso traquina. Cinco anos. Um princípio de vida. O marido disse que o menino podia ter saído da praia, ter atravessado a rua. Nesse instante, a voz repetiu

 

 

Perdeu-se um menino de cinco anos. Chama-se Carlos, tem um fato de banho castanho com flores. Roga-se a quem o encontrar que se dirija de imediato ao banhista.

A mulher estranhou serem as mesmas palavras, a mesma entoação, como se fosse um modelo qualquer escrito há muito tempo, como se não tivesse um nível de importância que levasse à emoção. Suspirou. Viu os seus filhos, seguros, a regressar de mais um banho. Mirou-os com olhos que não eram seus. Tremeu com o crescimento que a ultrapassava, com a autonomia. Ainda se recordava de os ter aos cinco anos, aos seis... por aí. Bebés pequenos de sorrisos mágicos e pés comestíveis. As saudades tomaram conta de si, sentiu as lágrimas nos olhos. Uma criança é um milagre que não sabemos apreciar quando devemos. Estamos demasiado ocupados com as coisas do dia-a-dia para nos enternecermos com a fragilidade da vida que está preste a entrar no mundo para nos dizer, para nos ensinar algo mais. Os filhos da mulher correram para as toalhas, os cabelos molhados, a pele morena. Queria tanto que voltassem para trás. Queria ser ela a rir-se do bebé de fralda que molhava os pés desafiando as ondas. Ela a carregar uma mochila extra com comida passada, chupetas e fraldas, mudas de roupa e aconchegos, brinquedos em plástico, formas para desenhar estrelas na areia, baldes para construir os mais belos castelos. O marido estacou e concluiu que na praia havia muita gente, não fazia sentido procurar o Carlos que não conheciam. A mulher olhou para o mar e ele disse

Não está no mar, está aí algures a ver alguma coisa, distraído com uma coisa maravilhosa.

Ela assentiu e começou o caminho de volta para debaixo da sombrinha laranja. Passou por duas senhoras de idade que conversaram em espanhol a uma velocidade tal que não permitia qualquer compreensão. Sentiu-se estrangeira. O marido instalou-se na sua cadeira de praia, livro na mão. Ela hesitou ainda, abriu a geleira, bebeu água e o filho mais novo pediu uma sandes de fiambre. Pediu como deve ser, acrescentando “se faz favor” e, no fim, agradecendo. A mulher sorriu. O mais novo é sempre o protegido. A mulher sabia disso desde sempre, era a irmã mais velha de um rapaz que, ainda hoje, todos protegiam. Sentira na pele essa diferença e não sofria com isso. Tudo o que é pequeno tem mais graça, dizia-lhe a mãe. E ela concordava e ainda hoje concorda. O Carlos, com cinco anos, será decerto mais engraçado que os seu filhos, apenas por estar ali, nos cinco anos. A pequenez e a respectiva graça não são sobre o amor. O amor dos filhos é incontornável às coisas do crescimento. Ter filhos é ter o coração fora do corpo. Ela também sabia disso. Sentou-se afastando outros sonhos e necessidades. Queria regressar ao livro e esquecer-se de tudo por momentos. Começou a ler. E, como no princípio da tarde, a voz anunciou

 

Avisam-se os senhores banhistas que o menino já foi encontrado e está com os seus pais.

 

A praia inteira desatou a bater palmas. A mulher sentiu as lágrimas a escorreu, escondidas nos óculos escuros. O marido não deu conta, embrulhado na leitura. A praia voltou à sua rotina. O tempo do amor não permite partilhar tudo, sobretudo a dor. A mulher também sabia isso há muito tempo.

 

publicado por Patrícia Reis às 17:26
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