A mulher considerou se podia ter um plano de fuga.
Um plano faz-se com tempo e, na pressa dos dias, a vida já lhe ensinou que nunca lhe chegam 24 horas, tem sempre de agir, pensar, fazer, falar, escrever... mais depressa.
Os outros exigem, ela providencia e habitou-se a esse registo.
Um plano não seria difícil de congeminar. Podia ir. Para qualquer ponto do planeta. Só pelo prazer de ir.
Apanhar um avião, comer quilómetros de estrada, escapar ao lixo de todos os dias, a rotina, as contas, o trabalho, as injustiças, as alegrias, a psicoterapia de grupo que, invariavelmente, é o seu cenário. Todos os dias. Por causa de um ou outro, pouco importa agora. Quando são amigos é diferente. A mulher sente isso mesmo. E, quando o diz, sempre que o diz, sabe que é assim. Fica a saber em duplicado.
Um amigo mandou uma mensagem a dizer para ela não cortar a corrente, essas coisas que circulam na net e que, em teoria, farão que no dia seguinte acontece algo de milagroso. Estar vivo já é um milagre. A mulher põe-se a ver agências de viagem on-line. Ter a coragem de ir, sabendo que volta, implica uma lista de explicações. Adia. Continua na net e vê as coisas mais inomináveis. Os comentários absurdos, a destilar fel. A poesia que circula. Fotografias impressionantes. Boas e más notícias. Reserva-se em silêncio para qualquer outro acto que possa fazer. Rapidamente.