Para MM
Isto foi o que ela disse
Tenta ser uma mulher banal, mesmo que seja difícil.
Banal, no caso, era tentar então ser como as outras.
A mulher encarou a multidão em redor, as roupas de marca, os sapatos altos, os relógios dourados e riu-se: a banalidade estava tão mal vestida e bebia champagne.
Ela continuou junto à amurada do navio e depois, sem pensar muito nisso, deu de beber aos Deuses, umas gotas da sua bebida de mulher banal algures no Mediterrâneo. O gesto, antigo, dizem que africano, ficou-lhe depois de tudo.
A mulher tentara explicar à amiga que nunca conseguiria deixar aquele tipo de gestos e, por isso, além de alegrar os deuses, ou pedir a sua protecção, tinha uma moeda preta na soleira da porta e um espelho na parede da frente para espantar o mal.
Há anos que ela tentava espantar o mal e a outra, sempre com a mesma paciência, a mesma capacidade de ouvir, tentava compreender, apesar de dizer que talvez fosse possível viver de outra forma. A mulher achava que não. Não era uma negativa frouxa, note-se, antes uma convicção.
O azar, o mal, a escuridão tomariam de assalto a sua vida, destruindo tudo, roendo os ossos, comendo a pele, inundando as ideias com águas pesadas, escuras, velhas. Ela nunca se livraria daquilo. Portanto, a ideia de ser banal, ser como as demais, era divertida e permitia-lhe um esforço de descontracção mesmo que momentâneo.
Quando regressou à cabine escreveu à amiga uma longa carta, em letra miúda que, muito mais tarde, foi recuperada e entregue à destinatária. A mulher assinava, no fim das quatro páginas, “da tua sempre mulher quase banal”. Na carta descrevia o barco, os outros, os horários, a mania do casual code ou dress code e conseguia ainda fazer algum humor com a banda de músicas americanas tiradas dos filmes e ainda dos velhos americanos de pele queimada a falarem alto sobre a Europa como se a entendessem. A carta ficou em cima da cómoda, junto ao espelho, perto da única jóia que a mulher tinha optado por levar consigo nesse exercício de normalidade, um colar de pérolas. Hoje é a amiga que o usa. Todos os dias. De certa forma, o colar é uma traição por ser uma memória viva de tudo aquilo a que a mulher queria escapar, a jóia que o marido lhe deixou depois de morrer, a única que lhe oferecera.
A amiga, ao usar o mesmo adereço, tomou a sua vez e, a partir de então, todos os dias, passou a viver menos um pouco, por vezes mais depressa, sem sentido, sempre pronta para a derrocada. Na primeira hora do dia passou a ter dificuldade em focar os objectos; como se tivesse perdido a visão.
Não pode partilhar nada disto com a primeira mulher, a que não podia nunca perder-se na banalidade, pela simples razão de que no último dia, navio atracado na bela e sereníssima cidade de Veneza, a mulher foi dada como desaparecida. O corpo nunca apareceu e, em Lisboa, por diligência e necessidade extrema de consolo, a família decidiu-se por um enterro no Alto de São João, um enterro de caixão vazio sobre o qual ficou uma lápide a dizer: aqui jaz Mariana Simão, uma mulher diferente.
A amiga, com o colar de pérolas ao pescoço, encomendara a lápide e ninguém se opusera. Melhor. Ao enterrar o vazio da amiga, depois de ter lido a carta e ter herdado o dito colar de pérolas rosa, sempre soube que nada seria como dantes. Tempos depois, a campainha da porta de casa tocou. Ela, com vagar, vendo o gato, que afinal era gata – Tristana - a passar, abriu a porta para receber uma carta registada e uma encomenda. A carta dizia:
Querida, sem banalidade alguma, faz-me um favor, manda o colar para o lixo e coloca este lenço ao pescoço. Irá proteger-te sempre. Hoje vou-me embora. Não sei para onde. O navio atraca em Montenegro e gosto do nome. Vou ficar por ali. Não levo nada. Deixo-te tudo. Não me chores muito, querida. Deixa-me ir. Eu sei que me amas e me queres. Eu nunca conseguirei descansar, por isso opto por fugir. Tu perdoas-me, não é verdade? Beijo-te sem longe ou distância.
A carta tinha quatro meses e sete dias. Mariana Simão nunca seria uma mulher banal. Sara ligou-se à internet e procurou links para vários cruzeiros no Mediterrâneo. Antes, porém, foi à cozinha e deitou o colar de pérolas, o marido de Mariana, para o caixote do lixo. E sorriu.