A mulher perguntou-se
Terei feito alguma coisa mal?
Viu a lua, cheia, brilhante, o trânsito e a chuva. Correu para o estacionamento, cumprimentou o senhor dentro da casinha onde pagou o parque e a pergunta manteve-se
Terei feito alguma coisa mal? Ou dito? Ou escrito?
Já no carro, a enfrentar as luzes de Lisboa desfeitas pela água do céu, a mulher decidiu que era melhor, como sempre foi, deixar de se interrogar. Afinal, era assim há tanto tempo. O truque está em concentrar-se apenas no que é bom. Fez uma lista mental de coisas boas. De livros para ler. De discos. De coisas para fazer. De prendas de aniversário. Não pensou num edredon para colocar dentro de capa de lençol, não pensou em cigarros e conversas, num frigorífico pouco recheado. Ligou ao filho. Só para se tranquilizar com a sua voz. Desligou e manteve-se dentro das regras do trânsito, abaixo dos 50. O telemóvel tocou e um amigo disse-lhe
Estes gajos, pá, estes gajos...
Não precisou de perceber quem eram os gajos. Ninguém precisa. E, assim, a pergunta desapareceu e ela voltou a um modo funcional.
Nada de novo, portanto.