A mulher disse que não tinha de tentar nada. Tentar não era merecedor de uma atenção, um pensamento. Importa apenas a acção concreta de querer mudar e mudar é possível. Isto foi o que a mulher disse e a outra ouviu, atenta, ao telemóvel, sem fazer comentários. É importante deixar as pessoas falarem até ao fim. Quando se instalou o silêncio, a mulher-ouvinte, tentou explicar e pensou no verbo tentar com ternura. Não seria capaz de mais. Tentar era também uma forma de ser e não se pode despedir a embalagem onde nos carregamos para se ser qualquer outra. Sendo isto uma evidência, a mulher-ouvinte limitou-se a dizer
Tens razão. Eu sei que tens razão.
Depois, deixou-se estar no silêncio da casa, do miúdo que tosse, do idiota do cão que é de guarda e acha que é fundamental ladrar à entrada de qualquer estranho no prédio. Hoje podia fazer o frango. Ou talvez amanhã. Podia ler sobre os acordos de Alvor em 1975 ou limitar-se a ler o manuscrito de uma amiga. Estranhando o silêncio de outro amigo, ficou feliz por ouvir o telemóvel tocar. Outra mulher, sempre presente, sempre à espera de a apanhar num salto falhado. Falhado por ser uma salvadora, é certo. A outra mulher ia a caminho das compras, não tinha frango descongelado, por isso os afazeres eram muitos. Deixara um sessão com outras pessoas e agora ria-se e tentava saber como o mundo roda quando ela apenas lhe apetece dançar com vagar.
Percebes?
Sim, percebo muito bem.