As letras que constroem uma amizade
Há pessoas que passam na nossa vida, outras ficam. Umas têm mais importância, por razões que nem sempre conseguimos descortinar. O meu encontro com Maria Teresa Horta deu-se aqui, nas Correntes d’Escrita. Somos mais um caso amoroso deste encontro literário que, todos os anos, nos aproxima. Quando escrevo “amoroso” é por acreditar que a amizade é a melhor forma de amor. Aprendi esta verdade com outras mulheres, outras escritoras.
Leio a Maria Teresa há muito tempo. Somos amigas de conversas longas ao telefone, de silêncios de mãos dadas. Trocamos ideias de livros, sobre livros, autores, poetisas.
- Não podes, não podes deixar de ler a correspondência entre Rilke, Boris Pasternak, Marina Tsvetayeva. Está na minha mesa de cabeceira.
E eu a correr para a livraria à procura. A ler com cuidado. Mas não é só esta troca que faz com que haja uma relação permanente. É o interesse desmedido no mundo. Uma certa tristeza confessa que partilhamos e desconhecemos a origem ou, não desconhecendo, não queremos mencioná-la. As palavras ditas têm outra força. Leio e releio as Cartas Portuguesas para fazer um jogo comigo: quais terão sido escritas pela Maria Teresa? Sei que mantém um pacto com as duas outras co-autoras e nunca irão revelar quem escreveu o quê. Muitas vezes, Maria Teresa conta-me desse processo de escrita, da forma como a PIDE a perseguiu, o julgamento que, este ano, faz quarenta anos que terminou: três mulheres condenadas por escrever um livro a partir das cartas de Mariana Alcoforado? Sim, teias de um regime. Teias que Maria Teresa conheceu bem. No pior dos sentidos. Tendo consciência, enquanto jornalista, das fronteiras e desobediente em tudo o resto. A seguir “Minha Senhora de Mim”, o primeiro livro que li da sua autoria, publicaram-se as Novas Cartas. Em “Minha Senhora de Mim”, Maria Teresa Horta escreve:
POEMA DE AMOR
Minha mágoa
minha água
meu sabor de fruto solto
meu fruto
de sol aberto
no seu caminho revolto
meu infiel
meu ramo
minha flor de cetim
meu corpo que não derramo
meu insuspeito
de mim
“Minha Senhora de Mim”
Fui derrotada pela beleza e, de novo, pela tristeza. Maria Teresa nunca considerou o risco que seria publicar um livro como este, a escrita era urgente e, por isso, o livro se fez. A poesia nasce-lhe na ponta dos dedos e o que é preciso dizer, ela diz. Não gosta de regras, não gosta de obedecer e de ser conformada. Detesta rótulos. As Novas Cartas também são disso um exemplo claro.
Em Maio de 2012, na sua página pessoal do Facebook, escreveu:
Desobediência
Não pretendo mais do que o limite
que para além do limite
já se entrega
Eu cumpro os meus
limites,
não cumprindo as regras
O seu percurso, como jornalista através das inúmeras e memoráveis entrevistas que fez e dos “Quotidianos Instáveis”, crónicas que assinou durante muito tempo, assim como escritora/poetisa é, no mínimo, digno do maior respeito. O livro “As luzes de Leonor”, destinado a não ser um sucesso, garantiam tantos, já que tem mais de mil páginas, deu-lhe – por fim – o reconhecimento merecido. E, ao mesmo tempo, depois de treze anos a escrever a história da sua penta-avó, ficou órfã de missão. Mas havia ainda mais. Os poemas de Leonor, poemas que escreveu enquanto o romance crescia. Um ano depois do lançamento do livro, os poemas são publicados.
Marquesa de Alorna
Ah minha avó
minha marquesa
minha poetisa dos limites
De minha mãe
seu avesso
da literatura teu vício»
“Poemas para Leonor”
Ao fim de cinquenta e dois anos de carreira, uma vida a escrever, Maria Teresa continua a surpreender. Todos os dias. E as ideias crescem-lhe no peito, sempre a pensar no próximo, no que falta dizer, no que ainda não foi escrito.
Tive o privilégio de participar no último projecto, “A Dama e o Unicórnio”, sobre as seis tapeçarias que são, ainda hoje, consideradas das dez melhores obras medievais. O conjunto de poemas é extraordinário e o namoro da autora com a dama, a aia, o leão, o unicórnio, a percepção dos sentidos e a forma como os explora é uma história.
Sonho
O unicórnio
sonha
com a chuva
Com as neblinas
com as lágrimas
Com as águas
Iludindo o disfarce
da sua natureza
enganadora e ávida
“Dama e o Unicórnio”
Tudo na Maria Teresa é uma história. Lê-la é fazer parte da sua história por ela ser esse tipo de escritora/poetisa: deixa-nos entrar.
Felizmente, por mero acaso, vim parar dentro da moldura que compõe uma parte da sua vida. Não a parte da geografia afectiva da família, um tesouro que ela preserva com mil cuidados, mas sim esta ideia de ser mais uma letra dentro da palavra amizade e de como isso – só isso – é um mundo. Obrigada Maria Teresa.