Segunda-feira, 29 de Outubro de 2018

três passos a favor da lucidez

Há o momento da dor, depois a tentativa estranha, brutal, de querer voltar à superfície, mesmo que a superfície seja um tumulto, não temes a tempestade, tens é de sobreviver, por isso precisas ainda de dar outro passo, algo idiota, mas que é teu, algo que pertence apenas à tua essência e pouco mais: fazes voto de silêncio. Não é por entenderes que tudo passa, que o tempo corre atrás do tempo e que o hoje foi o futuro de ontem e cenas dessas que se lêem em quadros animados nas redes sociais. Não. Fazes voto de silêncio por tudo te ser incompreensível, as pequenas e as grandes coisas da tua vida. E não, não é o Brasil ou a Hungria, embora também seja, porque és esse tipo de pessoa, atenta ao mundo e aos outros, tens preocupações, tens medo de militares e de fascistas e ainda de quem se abstém, mas não é nada disso, é mais grave por te pertencer em exclusivo, é uma dor tua, que está dentro, ferve no sangue, maltrata as vísceras e, de repente, tu és toda a humanidade na dor. Apenas na dor. Sabes, por seres razoável, que há mais do que a dor, mas isso agora importa pouco, estás focada no que sentes e o que sentes não tem qualquer razoabilidade. O silêncio é uma máquina de consumo acelerado para o pensamento circular, viciante, viciado, tu não pertences aqui, não és daqui. Queres ir embora, não saberias dizer para onde, mas é o que queres, ir, ir, ir embora. E o silêncio dá-te essa vertigem do querer ir embora para lugar nenhum em especial e depois dá-te a voz interior que troça de ti, que te chama estúpida e outras coisas. Até a dor te dá trabalho. Esticas o corpo, tentas controlar a dor de cabeça que se aproxima, pedes-te silêncio. Não há hipótese, o teu silêncio é holocaústico, é terrível. Depois repetes, não pode ser assim, nada é holocáustico, nada que se passe contigo, a tua dor não vale nada, a tua dor possui um valor negativo, quase que não se vê. Por tudo isto, voltas a sair à rua, deixas a dor na gaveta, cais na real, vais. Porque importa ir. Mesmo sem saber para onde, mas vais, vais por aí e isolas a tua dorzinha sem importância e o teu silêncio é cortado por bons dias e se faz favor, obrigada, sim, não. A eficácia da vida a fazer-se sentir e a tua cabeça como um tambor da máquina de lavar. Este é o teu retrato patético. Tu sabes, foste tu quem o escreveu.

publicado por Patrícia Reis às 15:59
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